
“O Número 8”
Inspirada no conto ”Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector
Eu sou a caçula de uma família de oito irmãos. A minha casa sempre foi muito apertada. Tudo que a gente tinha era de herança. Passava de um para o outro, para o outro até chegar em mim. A gente dividia tudo: roupas, brinquedos e até a cama. Eu nunca tive problema com isso. Nunca me incomodei. O que me incomodava, me incomodava mesmo era dividir a minha bicicleta com a minha irmã. Eu queria usar, ela também queria usar. Eu queria brincar, na mesma hora ela queria brincar. Ela chegava ao ponto de furar o pneu, só pra eu não poder usar. Isso me dava uma raiva! Eu tinha vontade de... Sei lá! Bater nela!
Mas quando eu conseguia andar com a bicicleta, ah, era tão bom. Era como se eu tivesse um mundo só meu, que eu não precisava dividir com ninguém. Eu podia ser uma princesa, uma heroína com super-poderes... O vento batendo no meu rosto, nos meus cabelos... Era tão bom! Eu precisava ter uma bicicleta só pra mim, mas os meus pais não podiam comprar.
Então eu tive uma idéia: Ia escrever uma carta pra “Porta da Esperança”. Eu ia contar minha história e eles iam saber que eu precisava de uma bicicleta. Todos os dias eu assistia o programa esperando eles escolherem minha carta. Até que um dia... Eu percebi que não ia ganhar.
O tempo foi passando, passando... eu fuicrescendo, sempre dividindo a bicicleta com a minha irmã...
Até que a padaria perto da minha casa fez uma promoção: a cada cinco reais em compras você ganhava um cupom e podia concorrer a uma bicicleta. Ela era amarela, 18 marchas, linda! Ficava em cima da prateleira, com um monte de papel colorido em volta. Era o sonho de qualquer criança. Ah, como eu queria ganhar aquela bicicleta!
Aí, toda vez que tinha que ir à padaria eu dizia: - deixa que eu vou!
As vezes eu falava: -mãe, quero comer pão! Só pra poder ir à padaria.
Eu preenchia o cupom, rezava e colocava toda a minha fé, desejando que aquela bicicleta fosse minha.
Depois de um tempo, minha prima chegou lá em casa, branca, meio descabelada, parecia ter visto um fantasma. Ela disse: -Vá à padaria, acho que você ganhou a bicicleta!
Nossa, meu coração disparou! Eu não podia acreditar! Eu, dona da bicicleta! Eu senti uma mistura de felicidade, susto e medo de ser uma brincadeira de mau gosto e eu não ser a ganhadora.
Fui correndo pra padaria. Ai eu vi: o número sorteado era o número oito! O meu número!
Ela era linda, enorme, só minha! Já fui embora dalí com ela. Era como se tivéssemos sido feitas uma pra outra. Era como se o mundo todo fosse só meu e dela.